Sunday, May 04, 2008

De qual conhecimento

De uma conversa com uma amiga íntima, passei a refletir sobre uma questão que há muito me traz ponderações. Contei a ela sobre um ritual indígena, conhecido na regiáo amazônica do Acre, de nome Kambô. Kambô é o nome de um sapo da floresta, cuja pele guarda um veneno, que o protege de seus predadores. Os pajés desenvolveram uma "vacina" a partir desse veneno, para combater o que eles chamam de panema, que é a falta de ânimo e a falta de confiança dos indios para os dias de caça. Esta vacina é aplicada por um pajé, um sacerdote das tribos, com formaçao espiritualista. O kambô tem a funçao de trabalhar a purificaçao de quem a toma, tanto física quanto espiritual.

Esta amiga, que tem formaçao médica, se surpreendeu com minha conversa e me alertou sobre riscos de substâncias desconhecidas no nosso organismo. Falou na linguagem científica sobre os efeitos e as glândulas vulneráveis, etc, etc.

Pois sim. Pouco tempo depois, me encaminhou por email uma notícia que havia encontrado sobre um empresário que havia tomado Kambô, que decidiu aplicar nos amigos. um deles, faleceu.

Bem, história curiosa. Fé é realmente algo íntimo. Algo puramente individual. Não dá para erguer bandeiras sobre nada, cada um sente e vive as coisas conforme a sua história, seu contexto, e sua própria busca.

Naquela mesma noite da conversa, eu perguntei a ela por que eu deveria me basear no conhecimento formal, da sociedade ocidental, com descobertas cientificas deste século, e desprezar a cultura ancestral, ainda mais a cultura genuina brasileira. Conhecimento este que embasa nada menos que a indústria farmacêutica, a mesma que pede desculpas depois que alguns remédios matam seus clientes, e precisam retirar remédios do mercado. Claro, não sáo todas, não sao todos. Mas viva, esta é a sociedade da anestesia, aquela que conta com remédios para absolutamente tudo.

Nao é de hoje que ouço amigas defendendo a cesariana como forma de evitar a dor do parto.

Fluoxetina hoje é um dos remédios mais vendidos do mercado, o Prozac genérico, para os fins mais variados. A fluoxetina já é recomendada por médicos de primeira linha quando alguém reclama de dificuldades para emagrecer.

Castram-se animais para que eles náo precisem cruzar.

Há tratamentos para que as mulherem nao precisem menstruar.

Remédios vetados nos países desenvolvidos chegam ao nosso terceiro mundo mesmo com todos os riscos que eles apresentam, riscos estes que definiram o veto Equador para cima.

Homeopatia até bem pouco tempo era tido como remédio de curandeiro. Medicina chinesa era motivo de piada em reportagens das principais revistas semanais.

Então, por que eu tenho de acreditar piamente neste conhecimento científico que embasa essa indústria, e nao no conhecimento oral? Esqueçam o kambô. Falo de todos os remédios caseiros que as vovós passam e que surtem tanto efeito quanto drogas catalogadas.

Homeopatia, depois de tanto tempo relegada, entrou nos cursos de Medicina tradicional. A OMS já reconhece a medicina chinesa, bem como o xamanismo, por exemplo, (outra "terapia" de origem indígena) como fontes de tratamento de doenças psicossomáticas. E ninguém fala sobre isso.


Não se trata de estabelecer competiçao de conhecimentos, ou de elaborar teses em defesa de algo que realmente choca. Que catzo de veneno de sapo pode fazer bem a um ser humano, náo é?
Eu tomo meus remédios também, nao dá para ser radical.

Mas a história está repleta de seqüestros culturais, de "edições" da natureza para formatar ao que é consumível pela nossa sociedade.

Sobre o tal empresário que acabou por matar alguém ao aplicar Kambô, talvez tenha faltado a ele a formaçao espiritualista que lhe concede o "dom" ou o "poder"de ministrar tal vacina. Um sacerdote tem a sensibilidade treinada para identificar seu paciente, e qual a medida certa. Duvido que tal empresário tenha cometido o crime de propósito. Foi sem querer, como eu também náo poderia operar uma pessoa sem conhecimento prévio. Nao tenho tal formaçao. Há falsos jornalistas, falsos médicos, e falsos curandeiros.

Não dá para se fiar nem em um lado nem em outro. Estamos dentro desta sociedade ocidental. Mas com tantas derrapagens no nosso mundo formal, nao se pode olhar apenas por esse prisma.

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